Vivemos em uma sociedade onde o TER tem mais valor que o SER! Isso significa que o caráter, a honestidade, a generosidade, os sentimentos, as atitudes e gestos altruístas ainda têm importância para muitas pessoas, porém, não vamos nosenganar, muito menos ignorar a realidade, pois se todas estasqualidades abstratas supracitadas vierem aliadas a um considerável acúmulode bens materiais, para serem ostentados por aí, a sociedade aplaude de pé.
A verdade nua e crua é que a primeira impressão é a que fica, somos o que aparentamos. A imagem visual que transmitimos nos primeiros dez segundos para as outras pessoas é mais do que suficiente para que elas nos analisem e tirem todas as conclusões a respeito de nós (sendo conclusões verdadeiras ou não). Enfim, estudos mostram que somos criaturas visuais, 55% das impressões que as pessoas têm de nós é baseada nas aparências e nas ações, 38% no tom de voz e apenas 7% no que dizemos. Recebemos julgamentos quanto à classe social, financeira, a personalidade e nível de sucesso. No final da avaliação ou somos aceitos ou levamos a porta na cara (lembrando que conscientemente ou não também fazemos isso com os outros).
Por exemplo, não importa se o sujeitomora em um muquifo feioso, no qual caso entre apressado corre o risco de cair da janela de seu apertamento, porque se o muquifo em questão for em algum bairro considerado up, bacana, e receber um alto grau de importância por parte de outros indivíduos, o que importa?
O que importa morar mal se o carro dele é do ano e simplesmente o máximo? Ou ainda, que diferença faz morar mal se ele aparenta ser a perfeição e a educação em pessoa, se suas as roupas aparentam pompa, estilo e status?
Quando o TER fica mais importante que o SER, de forma gritante, nos deparamos com uma inconstância egoica, ou seja, ora o ego infla, ora desinfla, acarretando problemas emocionais relacionados a auto-estima (ora alta ora baixa) e a percepção da realidade (que fica distorcida, no que diz respeito a aparência externa).
Vivemos em meio à cultura das aparências, onde o ego é movido por um narcisismo sem freios. A aparência, o visual, o status social e a busca incessante pelos bens de consumo tornam-se TUDO na vida do indivíduo, as suas principais preocupações existenciais. E o interno? E os sentimentos mais profundos que existem em cada um de nós? Onde ficam as emoções? Quase esquecidas! Perdem o papel de protagonistas e ganham contrato renovado (isso para não serem demitidas) para serem coadjuvantes atuando no cenário da vida.
Ao não prestarmos atenção no que sentimos, no que nos move verdadeiramente para a vida, em nossas motivações internas e em nossa humanidade damos brecha para uma série de dores que ironicamente e conseqüentemente prejudicam a tal busca doida pelo TER. Isso faz parte da sociedade depressiva, panicada, com relações artificiais e empobrecidas de contato.
Apesar de tudo o foi dito neste post ainda ouço aquela velha história de que terapia é para malucos! Desculpem-me, mas no mundo atual e moderno ouvir uma ignorância dessas me incomoda e tenho certeza que tanto eu quanto inúmeros outros terapeutas sentem-se desvalorizados como profissionais. Percebemos todos os dias uma série de problemas, mas como supostamente só tratamos de malucos (o que também não há mal nenhum nisso, pois são seres humanos como nós) e ficamos restritos a essa condição, nada podemos fazer! Completo absurdo tal pensamento e vou lhes dizer minha opinião.
A terapia:
- É um espaço de trocas mútuas, de troca de experiências tanto por parte do cliente quanto por parte do terapeuta. Este último compartilha histórias, causos, sentimentos, sensações e experiências pessoais, desde que sirvam para facilitar positivamente o processo emocional do cliente e correspondam com o momento e a questão atual do mesmo.
- É um ambiente seguro e acolhedor. O cliente tem a chance de se abrir e se entregar inteiramente às suas emoções com sinceridade, sem máscaras, porque não faz parte do papel do terapeuta criticar ou julgar quem está lhe confiando suas dores e seus sentimentos mais íntimos.
- Pode gerar mudanças significativas em comportamentos e ações que só atrapalham e não estão mais sendo funcionais para a vida.
- Amplia o repertório emocional, isto é, o cliente passa a perceber sentimentos variados que nem sabe que existem dentro dele. Ele pode enxergar além do mundo confortável e rotineiro que construiu, se dando conta de emoções e de coisas a respeito de si e de sua relação com o mundo que sozinho, sem ajuda profissional, talvez nunca perceba. Enfim, as possibilidades para criar e realizar coisas na vida aumenta, metaforicamente falando, o mundo deixa de ser uma ervilha e passa a ser uma melancia.
- Não é algo que combine com mesa de bar e conselhos de amigos regados à chopp (embora chopp com os amigos seja uma delícia). Conselho é opinião formada, sem técnica, baseado em experiências pessoais de vida, em crenças, alguns preconceitos, conceitos e valores individuais. O terapeuta não aconselha, é imparcial, é um catalizador de mudanças. Estas últimas acontecem através da relação terapeuta/cliente, com dedicação de ambas as partes e seriedade. Nós terapeutas estudamos cinco anos e outros tantos anos são preenchidos com especializações e formações. Se simples conselhos adiantassem e resolvessem todas as questões não haveria Psicologia!
- Ajuda a desenvolver suportes. O cliente descobre sua própria força interna e desenvolve recursos dentro dele mesmo para enfrentar as dificuldades em seu caminho. Com o tempo ele passa a depender cada vez menos da terapia. Esse é o objetivo (ou pelo menos deveria ser) ajudar o cliente a conquistar sua independência emocional, munido de seus próprios recursos internos, após serem fortalecidos e desenvolvidos durante o processo terapêutico. Dinheiro é ótimo, eu adoro, nós terapeutas precisamos dele para nos sustentar, mas ele não deve vir na frente, em primeiro lugar, e sim a saúde de quem se cuida. Segurar clientes em terapia quando eles já possuem condições de voar com as próprias asas é no mínimo imprudência.
- Contribui para o aprofundamento das relações. A partir da relação empática e de confiança com o terapeuta, o cliente pode experienciar também relações menos superficiais e mais profundas com outras pessoas. O que seriam relações profundas? Relações de troca, afeto, respeito, amor, generosidade, altruísmo (o oposto do egoísmo) e alteridade (se pôr no lugar do outro e compreendê-lo) que nos faz sentir vivos, ser humanos melhores, sensíveis diante da dor do outro.
- É capaz de conquistar tudo isso, se e somente se, não só o terapeuta, mas o cliente esteja realmente afim. Terapeuta não faz milagre, nem cura ninguém em três sessões, simplesmente pelo fato de não ser adivinho, vidente, nem um ser superior, melhor do que todos. É um profissional qualificado para tal feito, que ama o subjetivo, a espontaneidade e o contato verdadeiro, trabalhar com pessoas, estabelecer vínculos, que acredita na força e na capacidade criativa de seus clientes. O terapeuta é um humanizador, com intuição, percepção e sensibilidade aguçadas. Portanto, quem quiser reconquistar o ser amado em três dias sem esforço e sem entrar no campo emocional é melhor procurar uma cartomante ou a Mãe Dináh!