O período pós Segunda Guerra Mundial foi de enorme importância para o campo clínico Gestáltico e para outras áreas da saúde mental. A criatividade e a inspiração para a invenção de novas idéias cresciam. Joseph Zinker (2007) afirma o quanto, nesta época, sofreu influências de outros pensadores existenciais e da Fenomenologia, entre outras teorias. Segundo ele, isto pôde acontecer porque com o fim da Segunda Guerra, as pessoas passaram a duvidar e questionar qualquer afirmação absoluta relacionada ao ser humano. O pensamento, antes incontestável, de que o indivíduo nasce como essência para depois se desenvolver durante a vida é substituído pela idéia de que a existência precede a essência. Dessa forma, o homem passa a ser responsável por seus atos, tomando o controle de sua própria vida. Isso não aconteceu de modo diferente no espaço terapêutico. O processo da Psicoterapia é confirmado como existencial, por acontecer no aqui-e-agora, no qual o cliente assume a responsabilidade de seu processo; e como fenomenológico, no sentido de que a experiência imediata é valorizada. Vimos no texto O que é a Gestalt-Terapia, que essa abordagem psicológica, durante a sua fundação sofreu diversas influências de outros enfoques terapêuticos, usufruindo de pontos de vista e perspectivas diferenciadas para a construção de uma abordagem criativa e inovadora. Porém, para uma melhor compreensão do surgimento e da conseqüente fundamentação teórica e prática da Gestalt-Terapia, é de suma importância investigarmos as experiências pessoais, vivências, histórias de vidas e influências culturais dos seus principais fundadores, Frederick Perls, Laura Perls e Paul Goodman, para compreendermos de onde surgiu as principais idéias da abordagem. Idéias essas que explicam a forte ligação da Gestalt com as Artes, devido às influências sofridas por seus precursores. Frederick Perls amava o teatro e a partir do que experienciou pôde utilizar recursos de expressão artística em seus trabalhos terapêuticos; Laura Perls deu enorme importância ao corpo no processo terapêutico devido a sua conexão com a dança e a música; Paul Goodman era poeta e escritor. Serge e Anne Ginger dizem sobre a Gestalt-Terapia e seus fundadores que:
A Gestalt, para além de uma simples psicoterapia apresenta-se como uma verdadeira filosofia existencial, uma arte de viver uma forma particular de conceber as relações do ser vivo com o mundo.A genialidade de Perls e de seus colaboradores (Laura Perls e Paul Goodman principalmente) foi elaborar uma síntese coerente de várias correntes filosóficas, metodológicas e terapêuticas européias, americanas e orientais, constituindo assim uma nova Gestalt, na qual o todo é diferente da soma de suas partes. A Gestalt se situa na intersecção entre a psicanálise, as terapias psicocorporais de inspiração reichiana, o psicodrama, o sonho desperto, os grupos de encontro, as abordagens fenomenológica e existencial, as filosofias orientais. (GINGER E GINGER, 1995, p.17).
Segundo Mônica Botelho Alvim (2007) estas três personalidades foram as principais formuladoras da Gestalt-Terapia. O contato delas com as artes ao longo de suas vidas, suas experiências pessoais e profissionais anteriores (influências diretas e indiretas de outros enfoques), suas visões de mundo diferenciadas ou semelhantes e suas vidas culturais criaram um fundo de existência pessoal de cada um, que influenciaram e enriqueceram de forma única a Abordagem.Fritz Perls era um gênio, um artista. E como todo artista gerou polêmica tanto na sua forma de viver quanto no plano terapêutico. (GINGER e GINGER, 1995). Ousado, carismático, possuidor de uma inteligência incontestável, poeta, sedutor, criativo, expressivo, envolvido com o teatro, pilotava aviões e era pintor. Sua vida era um turbilhão de novas experiências, movimentada emocionalmente, profissionalmente, no que se refere às suas relações sociais e principalmente porque era um homem que viajava muito, algumas vezes por gostar de se aventurar e outras vezes por necessidade (como por exemplo, sua ida para a África do Sul com o intuito de fugir do Nazismo e de Hitler). Fritz era judeu, nascido no subúrbio de Berlim. Sempre teve uma vida tumultuada por conflitos familiares e externos (primeira e segunda guerras mundiais). Na adolescência, aos 13 anos, por influência materna fez do interesse pelo teatro o seu refúgio. Interesse este, ao longo do tempo, transformado em amor e fascínio, mantido por toda a vida.
E, no entanto não é nada fácil contestar a genialidade de Fritz, seu penetrante senso de observação, sua intuição muitas vezes surpreendente, sua ampla cultura deliberadamente camuflada sob uma imagem rústica -, sua criatividade e vitalidade transbordantes, seu humor e seu sentido de autocrítica refinados, sua autenticidade provocadora em seu comportamento cotidiano (chegaram até a afirmar que ele era o único homem verdadeiro do século!). Ao falar dele sua mulher dizia que ele era uma mistura de profeta e coitado que Fritz considerava exato e citava com orgulho. (GINGER E GINGER, 1995, p.45).
Através do seu contato com o teatro pôde conhecer Max Reinhardt e sua escola. Este último foi responsável por influenciar o expressionismo alemão nos palcos e no cinema e dava maior importância à musicalidade, ao ritmo e a comunicação não-verbal na interpretação, bem como o rompimento da barreira entre a relação artista, personagens e público, permitindo o encontro, a tensão e o contato entre eles, idéia que hoje combina perfeitamente com nossa noção de organismo-ambiente da Gestalt-Terapia, noção essa [...] que descreve o contato como um encontro que envolve diferença e agressividade, manipulação e assimilação. (ALVIM, 2007, p.16). Logo, a relação de troca e o contato honesto e direto entre terapeuta e cliente são primordiais. Perls assimilou dessa experiência com o teatro a questão da observação dos gestos, da voz, do ritmo, da naturalidade, do contato e das dramatizações (conceito que também agregou do Psicodrama) e contribuiu para a Abordagem Gestáltica adequando e utilizando estes estilos no setting terapêutico. O ritmo e a musicalidade fizeram parte das formações de Laura e Perls. Laura era uma mulher com muita sensibilidade, perfeccionista e elegante em tudo o que se propunha a fazer. Respeitava profundamente o cliente e as suas necessidades, transformando o consultório em um ambiente acolhedor e de suporte, para que ele, dessa forma, pudesse se abrir. Além de ser muito criativa, com relação aos movimentos expressivos de sua dança e na inclusão da literatura em seus trabalhos. Laura Perls veio de uma família de judeus tradicionais de classe média alta. Sua mãe era uma ótima pianista e lhe ensinou aos cinco anos de idade a tocar. Com dezoito anos, já tocava como uma profissional. A dança moderna começou a fazer parte de sua vida aos oito anos juntamente com a música; não é à toa que mais tarde passou a utilizar o trabalho corporal associado à música em seus trabalhos terapêuticos, uma grande influência para a Gestalt-Terapia. Teve uma formação impecável. Estudou Filosofia, várias línguas, Literatura, escrevia histórias e poesias, diplomou-se em Direito e fez doutorado em Psicologia e desenvolveu uma tese relacionada à Psicologia da Gestalt. Segundo Jean Clark Juliano (2008), ela e Perls, boêmios da cultura moderna alemã, comprometidos intelectualmente e culturalmente, freqüentavam a Bauhaus, um grupo formado por poetas, artistas, filósofos e arquitetos. Esse grupo tinha posições políticas radicais, lutando por mudanças drásticas dos códigos vigentes. Logo se tornou alvo dos grupos nazistas que estavam em ascensão. (JULIANO, 2008). Com a participação nesse grupo, eles tinham acesso imediato a muitas informações e por isso se conscientizaram mais cedo de que a situação era grave. A proposta da Bauhaus de promover uma educação estética das massas se assentava na idéia de que a sociedade estava enferma e que a arte e a expressão estética deveria ser resgatada para reintegrar o homem ao mundo social (ALVIM, 2007, p. 19). Para Laura Perls, que sempre deu muita importância ao dialógico, a idéia principal da Gestalt-Terapia fundamenta-se na relação estabelecida entre cliente e terapeuta. (JULIANO, 2008). Segundo ela, a Gestalt é uma terapia holística que vê o organismo em sua totalidade e não percebe apenas a voz, o verbo e a ação separadamente. Sua relação com os clientes era utilizar qualquer contato físico caso achasse que essa atitude poderia gerar um avanço na terapia, na consciência corporal deles ou como um meio de estabelecer uma comunicação que antes era inexistente. Em sua opinião o artista funciona de modo holístico e o que faz com que o psicoterapeuta seja um bom profissional é o fato de funcionar, assim como o artista, holisticamente. (GINGER E GINGER, 1995). Além de terem sofrido influências sociais do grupo Bauhaus, de artistas, pensadores e várias teorias, que foram experiências importantes para que a Gestalt-Terapia fosse o que é hoje, o oposto ao racionalismo, Perls e Laura também puderam contar com a contribuição de Paul Goodman. Este era moderno, contestador de normas impostas, anarquista, controvertido, poeta, novelista, escritor, crítico, PhD em Literatura, intelectual (adorava discutir assuntos relacionados à Economia, Política e Filosofia). Era um homem de vanguarda, assim como Fritz Perls, a frente de seu tempo. De acordo com Mônica Alvim (2007), sempre em busca do aqui-e-agora, preocupado com as experiências do cotidiano e no que é possível fazer diante do que é sentido e experienciado. Essa é a idéia principal da Fenomenologia retida pela Gestalt, a ênfase na descrição, no vivido e não na explicação, no como e não no porquê. O amplo contato dos colaboradores responsáveis pela construção da Gestalt-Terapia - principalmente de Perls, Laura e Goodman - com as artes, suas vivências com outros enfoques terapêuticos, a forma como experimentaram suas existências e suas vastas vidas sociais e culturais movimentadas fizeram da Abordagem uma arte flexível, criativa, espontânea e moderna, focada na experiência vivida no presente.
De fato cada um pode inventar sem parar novas variantes e combinações originais, mesmo porque cada Gestaltista trabalha com o que ele é, tanto quanto aquilo que sabe, em seu próprio estilo, integrando sua experiêprio estilo, integrando sua experi seu prta trabalha com oque ele ncia pessoal e profissional anterior e confiando em sua própria sensibilidade e criatividade específicas. Contrariamente à Psicanálise, a Gestalt não reinvindica o estatuto de ciência, mas tem a honra de permanecer uma arte. (GINGER E GINGER, 1995, p.30).
Cada psicoterapeuta desenha sua trajetória profissional e dá contornos a ela de modo único e particular, entretanto, podemos perceber diante das vidas destas três grandes figuras visionárias, a necessidade de ampliação referente aos campos sociais, artísticos e culturais. .A partir do que experiencia e vivencia ele pode criar, inovar, inventar e adequar todo o conhecimento adquirido à forma pessoal de atuar na prática psicoterápica.
. Referências:
ALVIM, Mônica Botelho. O Fundo Estético da Gestalt-Terapia. Goiânia: Revista da Abordagem Gestáltica, VI. XIII/ Nº1, Jan/Jun, 2007.
GINGER, Serge, GINGER, Anne. Gestalt: Uma Terapia do Contato. São Paulo: Summus, 1995.