A psicologia no atendimento a pacientes com deficiência auditiva adquirida
por Marcia Oliveira
Desde que comecei a trabalhar no Centro de Saúde Auditiva, comecei a notar que as pessoas que convivem com o deficiente auditivo precisam de algumas informações que poderão ajudar no convívio, melhorando a qualidade de vida e relacionamento social e familiar.
Nossa sociedade adquiriu o péssimo hábito de falar gritando. Às vezes por preguiça de ir até o interlocutor, ou por impossibilidade de locomoção, mas que é um ato mal educado e desagradável isso é!
Quantas vezes alguém te pede pra chamar uma pessoa e você ao invés de ir até ela, grita:
- Ô FULAAAAANOOOOO, ESTÃO TE CHAMAAAAANDO!!!
Ora bolas, se fosse pra chamar desse jeito, não precisava te pedir pra chamar! Ela mesma chamava, né!
Pois bem, agora imagine você que tem sua audição em perfeito estado, e agora descobre que está com uma dificuldade pra ouvir. Vamos supor que um amigo, um parente próximo ou uma pessoa querida, comece a zombar de você, te chamar de surdo, falar de qualquer jeito, com a língua embolada, boca mole, com preguiça de falar, sem a menor compreensão com a sua dificuldade. Como você iria se sentir? E se alguém começasse a gritar com você, e quando você vai pedisse pra pessoa repetir ela resmungasse: - Ah, deixa pra lá, você é surdo mesmo!!!
É isso aí, ninguém gosta de gritos, muito menos de grosserias! Se você conhece ou convive com um deficiente auditivo, preste mais atenção em algumas coisas!
É uma burrice falar gritando, você sobrecarrega suas cordas vocais e continua sem ser entendido! Então:
Não grite. Muitas das vezes quanto mais alta for a sua voz, pior vai ser para o deficiente auditivo entender o que você está falando. Sons altos às vezes incomodam, o ouvido dói, o som sai estridente e ele não entende nada! Fale no seu tom de voz normal, com a voz pra fora, pausadamente, olhando pra ele e de forma articulada, assim ele pode perceber pelo movimento dos seus lábios o que você está falando e se comunicar muito melhor. Tão simples e as pessoas ainda insistem em fazer o mais trabalhoso!
Se coloque no lugar do outro. Se é desagradável pra você ficar repetindo o que fala, falar mais alto, ou escutar a TV mais alta por causa do deficiente auditivo, imagina como deve ser pra ele. Perder algo que você tem desde que nasceu não é nada fácil. A maioria dos deficientes auditivos tem vergonha de ser surdo, medo de incomodar as pessoas, carregam uma tristeza profunda por não ser mais como eram antes ou simplesmente porque agora são diferentes! Fecham-se num mundo silencioso, pois não conseguem acompanhar uma conversa, e acabam se sentindo só! São poucas as pessoas que tem a capacidade de se preocupar em como essas pessoas estão se sentindo!
Não Zombe. O deficiente auditivo não é surdo porque quer. Só ele sabe o quanto é doloroso ter audição e perder, perder informações da qual se interessa, não poder participar de uma conversa normal e ter a sensação de que está sempre incomodando o outro com perguntas e televisão alta.
Por último e não menos importante:
Reconheça sua parcela de responsabilidade. Se a comunicação anda difícil, antes de se aborrecer com alguém que não te ouve, reflita se a responsabilidade é só da surdez dele ou é sua também que fala pra dentro, que é mal educado e não chega perto da pessoa que quer falar e grita.
Bem, até aqui falei de pessoas que adquiriram a surdez com o tempo.
Pras pessoas que convivem com um deficiente auditivo nato, aconselho que procurem uma boa forma para se comunicarem, se puder fazer um curso de LIBRAS (Linguagem Brasileira de Sinais) seria excelente, pois além de você demonstrar interesse pelo deficiente, e disponibilidade para se comunicar com ele, você se torna uma pessoa com quem ele pode contar para não se sentir isolado do mundo. E isso se torna um ato de carinho!
Só quem é privado dos sons tem a capacidade de saber como isso é sofrido. Eu também não imagino como seja. Mas se um deficiente auditivo me diz que isso é doloroso pra ele, eu entendo, acredito e respeito a sua dor.