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"Ensaio sobre a Cegueira"

 

 Minhas considerações sobre o filme

 

Por Fabiana Xavier

 Muitos dizem que o filme como obra cinematográfica é desastroso. Como obra cinematográfica, não tenho condições para avaliar, mas como terapeuta, e principalmente, ser humano, tenho minhas considerações a fazer.

 Se você assistir ao filme com os olhos do corpo talvez você realmente o ache um desastre, mas se você assisti-lo com os olhos da alma, você ficará, como eu, fascinado com as nuances emocionais contidas no filme. As entrelinhas me chamaram muito mais atenção do que o texto, a fotografia ou a atuação dos atores.

 Vou fazer um breve resumo para que você possa entender do que estou falando.

 O filme é a historia de uma mulher que se vê como a única que enxerga, numa comunidade de cegos. Por algum motivo misterioso, as pessoas começam a ficar cegas de uma hora para outra. Com medo da situação as autoridades resolvem colocar os primeiros cegos em um manicômio desativado, esse local se torna uma prisão, onde os cegos são impedidos de sair e começam a viver em uma comunidade formada apenas por cegos. No meio dessas pessoas está uma mulher que enxerga, que vê. Ela resolve se colocar nessa situação para proteger o marido que também ficou cego.

 Ela começa a proteger o marido e todos que estão ali, na situação de não enxergar, passa a ser os olhos dessas pessoas, sem que elas saibam do seu poder de enxergar.

 O filme é uma lição emocional, para quem se propõem a vê-lo com os olhos, sem nenhum trocadilho, do coração, e não com os olhos da critica.

 Na minha visão o filme fala da dor do poder, da solidão que o poder trás. Quando a mulher passa a ser a única que vê, ela se coloca no lugar de cuidadora, de protetora. Ela tem um poder inimaginável nas mãos, mas ao mesmo tempo ela é a única que consegue ver a imundice onde todos estão, inclusive ela, as condições precárias de vida onde eles se encontram.

 Fiquei imaginando a dor dessa mulher. Dor por ser a única que vê aquela situação e não tem ninguém com quem dividir, dor por ter se colocado no lugar de cuidadora de todas aquelas pessoas, lugar que ela se colocou, não precisava estar ali.

 Quando penso na dor, não posso deixar de pensar na dor da solidão. O quanto ser a única diferente a deixava sozinha, desamparada, o trabalho solitário de ficar ali e se tornar os olhos de todos aqueles que não podiam enxergar.

 Não dá para deixar de sentir o peso nas costas, como aquela imagem clássica do Atlas que carrega o Globo Terrestre em suas costas, o peso é tão grande que a estátua se encontra curvada. Fazendo uma comparação entre a estatua e o filme, eu quase que consigo ver a imagem daquela mulher, curvada com o Globo as costas. Carregar o Mundo é exaustivo e solitário.

 Aquelas pessoas com o passar do tempo se acostumaram a viver naquela comunidade, mesmo que fosse horrível, mesmo que elas tivessem passado por situação de pura degradação e humilhação. Deixaram de lutar por uma vida melhor, por uma vida digna. Até aquela mulher, que tinha o poder de enxergar, se acomodou numa zona de conforto, deixou de lutar pelo mundo lá fora, talvez o mundo lá fora estivesse pior que o mundo dentro, já conhecido, já se sabia o que esperar e como viver naquele horror. O possível horror de fora, era desconhecido, era necessário se adaptar novamente.

 Em determinado momento eles tiveram uma escolha, morrer ou arriscar o novo. A escolha foi arriscar o novo, mas também, nada pode ser pior do que a morte sem tentar, sem se esgotar todas as alternativas de vida, mesmo que essas alternativas sejam duras, difíceis.

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